“É feito por camponeses, moradores de favelas, militantes, artistas e defensores da vida. O Raízes do Brasil segue como farol de esperança, memória e futuro”

Mais de 400 pessoas participaram da celebração dos oito anos do Raízes do Brasil, realizada em 31 de maio, no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro. A programação teve início por volta das 9h da manhã, com o tradicional Café Camponês e a animada Feira Camponesa. Às 14h, foi servido o tão aguardado almoço com a famosa feijoada da Tia Doca, que contou com uma versão vegana preparada em parceria com Regina Tchelly. Durante toda a tarde, o evento seguiu com falas públicas de representantes de movimentos sociais, sindicatos, organizações populares e lideranças políticas. A celebração foi encerrada em grande estilo com a apresentação musical do Sarau da Terra, conduzido por Ricardo Moreno, trazendo ainda mais encanto e emoção ao dia.
O Raízes do Brasil, idealizado pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), ao longo destes oito anos, tem sido fundamental na promoção da soberania alimentar, conectando o campo e a cidade por meio da alimentação saudável, da gastronomia popular e da agroecologia. De acordo com Beto Palmeira, da Bahia, que começou a militância no MPA entre 2004 e 2005 e desde 2017 contribui na construção do espaço, diz que “ele surgiu a partir da aliança com cidade, da compreensão dos movimentos urbanos, assim como dos sindicatos, sobretudo da Federação Única dos Petroleiros (FUP). O objetivo era estruturar o trabalho do MPA no Rio Janeiro com geração de renda para as famílias agricultoras e para as pessoas que atuam na organização”.
Victor Tinoco, Superintendente do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) no Rio de Janeiro, afirmou que tem o prazer de se fazer presente nos aniversários do Raízes. Disse também que ali não é só um espaço, mas um lugar de encontros: “É a concretização da unidade entre cidade e campo, de solidariedade e reciprocidade. É uma construção saudável em termos de alimentação. É o lugar do encontro de políticas públicas. Aqui você tem a cesta camponesa, mas também tem a cozinha solidária. Tem construção política e de formação e integração. São múltiplas ações que acontecem aqui. Oito anos ainda é pouco para o muito que já foi feito aqui”, destacou.
Além da presença de Tinoco, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), a celebração contou com a participação do Deputado Federal Chico Alencar (PSOL); das Deputadas Estaduais Renata Souza (PSOL) e Marina dos Santos (PT), da Vereadora Maíra do MST (PT). Estiveram presentes também Maria Emília Pacheco, ex-presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea); Sílvio Porto, Diretor-Executivo de Política Agrícola e Informações da Conab, que responde interinamente pela Diretoria de Operações e Abastecimento.
A programação foi ainda mais enriquecida com a participação de importantes referências nos movimentos sociais e na luta por direitos: Marinete Silva, do Instituto Marielle Franco e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB; Claudia Santiago, do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC); Sandra Quintela, do Jubileu Sul; Carmem Diniz, do Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba; Silvio Wittlin, do Coletivo Árabes e Judeus pela Paz; Adair Rocha, professor e assessor da Reitoria da UERJ; Flávia Londres, da secretaria executiva da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), dentre outros.
Sobretudo, marcaram presença com força e protagonismo as famílias camponesas e quilombolas que constroem o MPA no estado do Rio de Janeiro, ao lado de lideranças camponesas de outros estados e de moradores das favelas do Morro dos Prazeres, do Cantagalo em Niterói. Essa diversidade reafirma o Raízes do Brasil como um espaço coletivo de resistência, de celebração e construção de um projeto popular de país, onde campo e cidade se unem em torno da soberania alimentar, para o povo.
Quem faz o Raízes do Brasil?

Maria Aparecida de Oliveira, conhecida como Tia Doca, filha de camponeses, veio de Bom Jesus de Itabapoana, noroeste fluminense, de Vila de Cava, e está há oito anos no Raízes do Brasil. Sua família, assim como a de tantos outros moradores daqui teve que se retirar de suas terras por causa da chegada das grandes indústrias. Elas chegaram e vendiam os alimentos mais baratos e as pessoas não compravam mais dos camponeses. Para ela, o Raízes do Brasil é esse contato com a sua memória familiar, é como se fosse um filho e que agora está vendo crescer. “Estou aqui desde o início e lembro que o nosso objetivo era que ele trouxesse memórias afetivas, por isso, temos as raízes, os bolinhos de chuva, como se fosse a casa de nossa avó. A gente sempre quis que as pessoas se sentissem à vontade”, recordou.
Ainda de acordo com ela, o Raízes do Brasil é uma forma de mostrar para os agricultores que o trabalho deles também é prioridade e que não deve desistir. “Eles também são importantes na sociedade, sem eles como teria a feira aqui? O arroz, feijão, hortaliças? O trabalho deles é importante para a sociedade”, completou. Andreza Paiva, de Sergipe, em 2021 veio para o Rio de Janeiro, ela contribui com as feiras, no acompanhamento com os agricultores. Para ela, o Raízes do Brasil foi a porta de diálogo com as comunidades no debate da alimentação. “Aqui é um lugar acolhedor para quem não se vê integrado a um conjunto de fatores externos, mas onde a gente consegue dialogar com segurança e confiança sobre o que a gente acredita. Celebrar os oito anos é celebrar algo que deu certo, foram oito anos construídos por muitas mãos que se somam e fazem acontecer”, afirmou.
Muriel Zerbetto, de Pirassununga, interior de São Paulo, também de origem camponesa, contou que este não é só um espaço de comercialização de venda de feira e restaurante, é um lugar que se propõe a ser a materialização de uma nova concepção de sociedade. “Todas essas frentes existem no sentido de garantir a auto sustentabilidade do local. Aqui tem café camponês, um café que é contra colonial. Temos a feira que ocorre às quartas e aos sábados. Temos o site para pedidos das cestas e entregamos em todo o Rio de Janeiro”, declarou. Dentre todas estas ações desenvolvidas no Raízes do Brasil, destaca-se, neste ano, a inauguração da Cozinha Solidária, um importante passo na luta contra a fome, voltada ao atendimento de famílias em situação de insegurança alimentar nas favelas do entorno.

Nestes oito anos, o Raízes do Brasil contribuiu para o MPA construir bases territoriais em vários municípios, assim como em Teresópolis, em Magé, e Guapimirim, em Petrópolis, Nova Iguaçu, Caxias, Mangaratiba, Quatis, Paty do Alferes Silva e Jardim. Sendo esta uma relação estabelecida com os agricultores a partir da certeza de que podem produzir porque se tem para onde comercializar. Um destes agricultores é Paulo Guimarães, conhecido como Lito, do município de Japeri, na Baixada Fluminense, “sou produtor de arroz, conheci o Raízes do Brasil por um acaso, inicialmente querendo vender melado e arroz pra eles e deu super certo. É daí que nasceu essa parceria que já tem dois anos. E estar aqui nesta comemoração é muito importante, é um espaço que ajuda muito os agricultores. Além de ser de esquerda e de grande confiança política. Nos próximos quero trazer meus familiares também”, disse.
Para Palmeira, o objetivo é sempre o de construir uma outra economia, camponesa e popular que não está baseada na acumulação privada, e sim acumular para distribuir para as pessoas que trabalham no processo. “Queremos uma construção do consumo como ato político, exemplo disso, é em entender que comprar um café de determinada marca, que tem ligação com empresas vinculadas ao estado de israel faz com que você financie o genocídio palestino. Ou seja, nossa proposta é que as pessoas comprem os nossos produtos, porque assim elas estarão apoiando os pequenos agricultores que lutam contra as grandes empresas, e isso é um ato político”.
Para finalizar, Palmeira declarou que: “A celebração não foi apenas uma festa — foi a reafirmação de um projeto de sociedade enraizado na solidariedade, na agroecologia camponesa, na cultura popular e na luta pela soberania alimentar. O espaço segue vivo e pulsante graças às mãos que plantam, cozinham, distribuem e compartilham. É feito por camponeses, moradores de favelas, militantes, artistas e defensores da vida. O Raízes do Brasil segue como farol de esperança, memória e futuro”.
Quer saber mais sobre o Raízes do Brasil?
Endereço: Rua Áurea, 80, Santa Teresa, RJ.
Acesse também:
Raízes do Brasil no Instagram:
https://www.instagram.com/raizesdobrasil.rj/
Cesta Camponesa:
https://www.cestacamponesa.com.br/
Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA):